sábado, 25 de janeiro de 2014

As crenças antigas: o egito



Tão longe quanto possamos chegar interrogando os egípcios, ouvi-los-emos afirmar a sua fé numa segunda vida do homem, num lugar donde ninguém pode volver, onde habitam os antepassados. Imutável, essa idéia atravessa intacta todas as civilizações egípcias; nada consegue destruí-la. Ao contrário, apenas o que não resiste às influências diversas, vindas de todas as partes, é o como dessa imortalidade. Qual, no homem, a parte durável, que resiste à morte, ou que, revivificada, continua outra existência?
A mais antiga crença, a dos começos (5.000 anos a.C.), considerava a morte uma simples suspensão da vida. Depois de estar imóvel durante certo tempo, o corpo retomava o sopro e ia habitar muito longe, a oeste deste mundo. Em seguida, mas sempre muito remotamente, antes mesmo, talvez, das primeiras dinastias históricas, surgiu a idéia de que somente uma parte do homem Ia viver segunda vida. Não era uma alma, era um corpo, diferente do primeiro, porém, proveniente deste, mais leve, menos material. Esse corpo, quase invisível, saído do primeiro corpo mumificado, estava sujeito a todos os reclamos da existência: era preciso alojá-lo, nutri-lo, vesti-lo. Sua forma, no outro mundo, reproduzia, pela semelhança, o primeiro corpo. E o ka, o duplo, ao qual, no antigo Império, se prestava o culto dos mortos. (5004-3064 a.C.)
Uma primeira modificação fez do duplo - do ka - um corpo menos grosseiro do que o era na concepção primitiva. Não passava o segundo corpo de uma substância - bi - de uma essência - baí - e, afinal, de um claror, de uma parcela de chama, de luz. Essa fórmula se generalizou nos templos e nas escolas. O povo, esse, se atinha à crença simples, original, do homem composto de duas partes: o corpo e a inteligência - khou - separáveis. Houve, pois, um instante, sobretudo nas proximidades da 18.a dinastia, em que coexistiam crenças diversas. Cria-se, ao mesmo tempo: no corpo duplo, ou ka; na substância luminosa, ou baí, ba; na inteligência, ou khou. Eram três almas.
Assim foi, sem nenhum mal, até ao momento em que, formado o corpo sacerdotal, este, sentindo a necessidade de uma doutrina, impondo-se-lhe uma escolha, teve que tomar uma decisão. Então, pelos fins da 18.a dinastia (3064-1703 a.C.), os sacerdotes muito habilmente, para não ferir nenhuma crença, para chamar a si todas as opiniões, conceberam um sistema em que coubessem todas as hipóteses.
A pessoa humana foi tida como composta de quatro partes: o corpo, o duplo (ka), a substância inteligente (khou) e a essência luminosa (ba ou baí). Mas, essas quatro partes se reduziam realmente a duas, no sentido de que o duplo, ou ka, era parte integrante do corpo durante a vida, como a essência luminosa, ou ba, se achava contida na substância inteligente, ou khou. Foi assim que, nos últimos tempos da 18.a dinastia, pela primeira vez, o Egito, embora sem lhe compreender a verdadeira teoria, teve, na realidade, a noção do ser humano composto de uma única alma e de um só corpo. A nova teoria se simplificou ainda mais, com o passarem o corpo e o seu duplo a ser tidos como permanecendo para sempre no túmulo, enquanto que a alma-inteligência, servindo de corpo à essência luminosa, ia viver com os deuses a segunda vida. A imortalidade da alma substituía desse modo à imortalidade do corpo, que fora a primeira concepção egípcia. (7)

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